O dia de hoje costuma ser inundado por mãos sinalizando e frases de efeito sobre “incluir”. No entanto, para quem vivencia a realidade da comunidade surda há 14 anos, devo dizer que o Dia Nacional da Libras precisa ser, acima de tudo, um momento de análise honesta sobre o abismo que ainda separa o discurso da prática.
É inegável que avançamos. A presença da língua de sinais, em espaços antes inimagináveis, demonstra que a barreira do silêncio está sofrendo fissuras importantes. A sociedade precisa entender que a língua de sinais não é um conjunto de gestos ou uma “tradução” do português, mas uma língua viva, com gramática própria e patrimônio cultural legítimo.
Contudo, não podemos ignorar a persistência da acessibilidade de conveniência que é aquela que aparece na foto oficial ou em datas comemorativas, mas desaparece no guichê do hospital, na delegacia ou na rotina da sala de aula. A Libras ainda é frequentemente tratada como um ato de caridade, quando, na verdade, é o pilar fundamental da autonomia e da cidadania de milhares de brasileiros.
Língua é identidade. Quando negamos a presença de intérpretes qualificados ou falhamos em oferecer uma educação bilíngue real, não estamos apenas dificultando a comunicação, estamos isolando indivíduos e cerceando direitos fundamentais.
No Método Diamante, nosso ensino é pautado na construção de pontes que suportem o peso da realidade. A verdadeira celebração deste 24 de abril não acontece nos aplausos sinalizados de um post de rede social, mas na garantia de que, amanhã, o cidadão surdo possa ocupar qualquer espaço e ser compreendido em sua própria língua.
Menos romantismo, mais políticas públicas e respeito linguístico efetivo.
Professora Jenifer Rodrigues
24 de abril de 2026